Tenho por ela um carinho que não cabe no meu peito. Ela é alta, linda, doce e dona de um sorriso predador. Seus cabelos assumem sempre a forma de um camaleão, embora eu prefira a cor amarela da última vez em que a vi. Suas sardas deixaram de ser contáveis faz um tempo e sua capacidade de fazer amigos e captar os outros pelos olhos é imensa. Resumindo, ela é uma das minhas paixões.
Digamos que a vida já lhe reservou surpresas agradáveis e não tão agradáveis e, por isso, ela tende a achar que nada dá certo em sua vida e que existe uma conspiração para tirá-la do sério, deixá-la fraca e infeliz. Concordo que ela tem sido conduzida a situações de extremo limite, passando por coisas intensas e doídas -- como se estivesse sempre à prova e não estivesse conseguindo passar para outra fase da vida. Eu entendo, acredite. Todo mundo passa por isso, cada um de um jeito. Só que, como todas as pessoas especiais, ela está dentro do problema e não consegue enxergar a solução. Pois eu consigo.
O fato é que não se pontua uma escolha. Talvez a escolha de um livro, de uma balada, de um colega eventual, de uma roupa. Mas não se pontua uma escolha que nos conduz a escolhas definitivas. Por isso, eu a chacoalho para a vida e lhe aviso para que tenha cuidado com as escolhas vazias, com as circunstâncias e companhias que exigem atenção, com o sentimento momentâneo de euforia. Nem sempre essas coisas nos conduzem à felicidade duradoura. Tudo pode ser mais efêmero do que imaginamos.
E claro: nunca é demais lembrar-se de quem somos, de onde viemos, quais são nossas raízes, quem são nossos pais, irmãos e amigos de verdade. Preciso avisá-la que, munida de tudo isso, certamente ela não sentirá mais essa solidão quando está no meio de uma multidão e nem este vazio quando está cheia de coisas pra fazer.