sábado, 27 de março de 2010

As pessoas comemorando os anos de prisão do casal Nardoni fez brotar algumas lágrimas aqui. Não porque discordo do que se passou, mas porque não há o que comemorar. Fogos de artifício para celebrar o quê? A tristeza segue, minha gente. Não há um porquê consistente para isso. Não mesmo.

É claro que tudo isso fez lembrar do dia que você jogou pela janela do seu nono andar a nossa felicidade já tão machucada pela convivência breve. O cenário é assustadoramente parecido e a dor nunca deixa de me rondar. Tudo já estava bagunçado e você rasgou a teia de proteção e arremessou tudo que vivemos mundo afora. Mas não torço para que você seja condenado. Pelo contrário, espero que você esteja mais feliz, como desejava naquele dia.

Mas continuo não tendo o que comemorar. Não mesmo.

domingo, 21 de março de 2010

"De repente ela percebeu que o amor era o instante em que o coração fica a ponto de explodir".

Lisbeth Salander, em Os Homens que Não Amavam as Mulheres, de Stieg Larsson

sexta-feira, 19 de março de 2010

a arte de ver no escuro

Incrível como o barulho do silêncio dentro da madrugada é confortável. Na pausa do sono para o xixi, tudo se resume a uma escuridão sem propósito, mas necessária – acender a luz pode significar a fuga do sono (e ninguém pode querer isso às 3h). No escuro a parede é tateada e sentimos, de verdade, o verde dos azulejos. No intervalo de poucos minutos, penso em como a casa dorme de um jeito lindo, carinhoso. Tudo de olhos fechados e retinas sonolentas.

Ontem, no recreio do sono, lembrei da casa antiga, onde, freqüentemente, eu errava a porta e entrava no quarto do pai que dormia de conchinha com a mãe. Aconchegava meu corpo no meio deles e me sentia assim: amada de um jeito especial, de um jeito que sentimos quando cabemos em colos impreterivelmente.

Perdi o sono, é claro. E, ao invés de contar carneirinhos, pontuei na clara escuridão do teto as saudade dos azulejos laranjas com detalhes em branco do banheiro de lá. Saudades do quartão grande com três camas, onde eu e as irmãs (medindo menos de um metro) vivíamos juntas. Saudades de achar a cama do pai e da mãe, sempre prontas a atender um pedido irrecusável de carinho. Saudades da simplicidade, compreensão e felicidade genuína.

Saudades de caber em colos. É isso.

quarta-feira, 17 de março de 2010

gerúndios

Impaciência circulando nas veias.
Saudade bombeando melancolia para átrios e ventrículos.
Atenção falhando nas ideias.
Trabalho deixando a desejar no quesito "estar satisfeita".
Dor de estômago cansando o sorriso gentil de sempre.


Foi quando descobri que o gerúndio da vida não vai acabar nunca.
Quero minha mãe.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

a fonte secou

Laura gosta de casar palavras, usar advérbios para acentuar alguns sentimentos, dar às mãos para adjetivos que ficam bonitos juntos. Brinca com as letras constantemente e sente falta quando não o faz. De vez em quando, inventa palavras e as revira de pernas para o ar, buscando seus significados.
Acha que tem vocação para isso e seu maior sonho é escrever um livro que mostre diversos casamentos felizes entre frases, parágrafos, travessões e afins. Não tem tanta certeza de que alguém (além de sua mãe e uns amigos do peito) vá ler a obra, mas tem uma vontade de tentar que pinica até o céu da boca e faz arrepiar os cabelos da nuca.
Só que, ultimamente, ela esqueceu a fórmula. Não sabe mais casar. Esqueceu onde colocou seu provável dom. Assim não vai poder escrever o livro.
Se fosse um poeta, ela diria: E agora, José?

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

toc toc toc

Sim, há muito tempo não falo com você. O pior é que há algum tempo eu não falo DE você.

Não que minha saudade tenha cicatrizado ou que eu tenha aprendido como colocar uma pedra em cima de meu amor por você. Não depois de tudo. Minha saudade continua aqui, uma ferida aberta. Minha lembrança prega peças em mim com frequência, me fazendo recordar de todos os dias com céu azul e estrelas que passamos. Meus sonhos não conseguem deixar sua figura de dedos quadrados e cabelos ralos para lá. Minhas lágrimas não secaram e continuam respeitando a gravidade todas as noites, antes de dormir sobre o travesseiro de quando eu era criança.

Nossa falta de vínculo já foi assunto demais aqui nesse blog falido do ponto de vista da objetividade. Enjoei eu mesma de ler tantas letras molhadas de lágrimas. E sei que posso até ter afugentado uns pares de leitores / amigos que não compartilham de minha melancolia. Porque sua ausência me dói tanto que fico doída e saio espalhando dor com essas sílabas.

Mas ninguém tem muita noção do quanto o corte foi largo. Pra costurar fica difícil, eu sei. Por isso mesmo que eu tinha me decidido a não colocar mais você na minha pauta. Pensei e até levei a cabo meus planos de tirar você deste blog. Fiquei dias e dias seca de sua ausência, seca de coisas tristes pra serem colocadas pra fora. Não havia mais o que escrever, nenhum episódio novo.

Mas ontem, falando sobre carinho de pai na mesa do bar, meu coração sentiu a pontada. Como será que você está? Onde? Está feliz? Sente saudades?

Tem alguém aí?

é oficial

Quero dizer que o nó, a respiração pesada e esforçada fazem a gente sair dos trilhos. O medo latejando as pernas, apertando o estômago, contraindo as costelas e as unhas cravadas na palma das próprias mãos.

Preciso de férias do cérebro, do trabalho e das indecisões.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A combustão interna começou quando as borboletas acenderam a faísca de seu estômago. Faz mais de meses. A faísca não dói. Faz apenas uma coceguinha cazuzamente sutil nas paredes estomacais. Aparece sorrateira quando vê o amor nos olhos do outro. Um mexilhão invade seu sangue e o fogo vai deixando o estômago por veias secretas ao cérebro. Não há como controlar. Por lá, só fica o frio na barriga.

Com as veias quentes e o sangue desgovernado, não tem mais o supremo poder dos seus sentimentos. Gosta de ser amada. Quem não gosta? Sambar com o carinho do outro de mãos dadas, as borboletas coordenando os movimentos, o suor pingando na roupa, o sorriso de orelha a orelha, as bochechas na cor de maçã.

Quando o fogo se abranda e as veias voltam ao seu estado normal, sua alma deixa de sambar e os braços, de sacolejar. O outro se afasta e leva seu carinho cheio de promessa de futuro. O sorriso escorre pra dentro do rosto e o suor fica mais salgado e vira lágrima. As bochechas ficam hepáticas. O frio na barriga vai embora e o sentimento fica perdido em algum lugar de sua retina.

É quando o vazio toma conta de seu corpo. Um corpo oco, surtado, frio. É quando pode se dizer que, se seu coração fosse um céu, seria um céu nublado e sem estrela alguma.